O Tarô é um livro infinito, como o livro de areia imaginado por Jorge Luís Borges em um de seus relatos memoráveis. Texto sem palavras, formado por figuras, cores, letras, números, formas geométricas e outros símbolos, dispostos em 22 arcanos maiores e 78 menores, o Tarô demanda uma leitura diferente daquela exigida pelo formato Gutenberg: cabe ao intérprete, pela manipulação aleatória das cartas, dispor uma sequência, propor uma combinação, construir uma narrativa que é apenas uma de múltiplas rotas de significação. A leitura do Tarô, assim, concilia um programa ou conjunto rigoroso de regras com a intervenção do acaso, o que nos faz lembrar do conceito de obra aberta, de Umberto Eco, e dos labirintos visuais da poesia barroca e maneirista. Os tarôs mais antigos de que temos notícia, como o Tarô de Marselha, surgiram na Europa entre 1392 e 1450, pintados por artistas anônimos, o que dificulta a investigação histórica. Durante muito tempo, os estudiosos apontaram uma possível origem cigana do Tarô, tese atualmente refutada pelos especialistas mais contemporâneos. Cynthia Giles, por exemplo, no livro O Tarô: uma História Crítica, afirma que “a data de 1392 poria abaixo a teoria outrora popular de que o Tarô foi trazido para a Europa pelos ciganos, uma vez que eles não chegaram na Europa até 1411. Mas se os trunfos do Tarô apareceram no século XV, é possível que fossem afinal de contas parte do saber dos ciganos. Possível, sim. Mas não existe nada que confirme esta ideia – ou qualquer outra – sobre os primórdios do Tarô”. No campo dos mitos sobre a origem desse livro enigmático, não faltaram outras hipóteses, apresentadas pelos ocultistas, segundo os quais o Tarô teria surgido de um pergaminho intitulado Livro de Thot, atribuído ao próprio deus egípcio da sabedoria. Outros pesquisadores relacionam os 22 arcanos maiores com as letras do alfabeto hebraico e as concepções místicas da Cabala. O que sabemos de fato é que o Tarô, no final do século XV, era bem conhecido nas cidades italianas de Veneza, Milão, Florença e Urbino, conforme escreve Cynthia Giles. “Os centros principais do jogo eram Bologna, Ferrara, Milão, e deles vieram as primeiras provas da existência das cartas do Tarô […]. A primeira referência documental segura é de Bologna, datada de 1459. Há muitas referências de Ferrara a partir de 1442, enquanto que de Milão vêm as primeiras cartas de Tarô propriamente ditas ainda remanescentes.” Seja qual for a gênese dessa obra enigmática – egípcia, judaica, florentina, cigana –, é inegável a presença de sinais alquímicos, astrológicos e cabalísticos de diferentes épocas e culturas em cada carta, como as sucessivas camadas geológicas de um sítio milenar; o leitor, convertido em arqueólogo, deve decifrar não apenas as figuras alegóricas do Carro, da Torre, do Sumo-Sacerdote, da Estrela, do Sol e de outros atores desse teatro arquetípico, mas também o que está em cima, embaixo, à esquerda e à direita. Tudo tem significado, nada é casual, e o sentido de uma carta se relaciona com o de outras que estão próximas, como os elementos de uma frase. Livro iniciático, misterioso, o Tarô despertou o interesse de ocultistas como Eliphas Levi, Papus, Aleister Crowley, de artistas plásticos como Salvador Dalí, de poetas e escritores como Alberto Pimenta e Sylvia Plath, de psicanalistas como Jung, e também dos poetas brasileiros contemporâneos Monica Berger e Sérgio Viralobos, que se lançaram à tarefa de refabular a cornucópia de histórias do baralho mágico neste ótimo livro de poemas, A caverna dos destinos cruzados, que o leitor tem agora em mãos. A jornada começa com o poema de título homônimo, construído na forma de conto de fadas, que funciona como prelúdio da trama; nele aparecem dois personagens desenvolvidos pelos autores, não pertencendo ao repertório de símbolos do Tarô, mas presentes em todas as pequenas narrativas poéticas do volume: a Pantera e o Lobo. Em seguida, lemos 22 poemas que dialogam diretamente com os arcanos maiores do tarô – o Louco, o Mago, a Sacerdotisa, a Imperatriz, chegando afinal ao Mundo. A sequência dos arcanos não é aleatória, e conforme Sallie Nichols, em seu livro Jung e o Tarô, representa a jornada arquetípica do ser humano rumo ao autoconhecimento – a busca do self. Por isso mesmo, a viagem simbólica começa com o Louco, que representa o zero, o ponto de partida, a inocência, a ingenuidade, a instabilidade, a imprudência, entre numerosos outros significados, que dependem da posição das cartas vizinhas ao se fazer uma leitura. No poema dedicado ao Louco, Monica e Sérgio (todos os poemas foram escritos a quatro mãos) escrevem: “Não falo com ninguém / Porque sou nada. / Lanço meus dados / Na sua tabula rasa. / Sou irmão gêmeo do silêncio”. Após o monólogo dramático, em que o personagem se apresenta, a narração passa para a terceira pessoa, e ficamos sabendo do encontro do Louco com a Pantera e o Lobo, e do segredo que o desvairado, em sua louca sapiência, conta para a felina: “Você quer muito algo que não faz ideia”. Este é, exatamente, um dos muitos significados simbólicos do insano: ele é aquele que nos revela algo que ignoramos. Logo na sequência surge o Mago, com todas as suas ferramentas, habilidades e truques de prestidigitação, anunciando: “Não preciso mais do que gestos / Pra contar minha história: / Sou o número um dos arcanos, / A potência em primeira mão. / Um homem de poucos afetos / Que fez muitas gozarem em glória. / Atraí legiões de insanos / Até moê-los em grão”. Do mesmo modo que na composição anterior, após o monólogo de anunciação, temos um evento simbólico, que apresenta aos protagonistas da jornada poética um saber que desconheciam. Em cada encontro com os arcanos seguintes, novas surpresas e saberes irão se somando, até a revelação final, no arcano 22, o Mundo, que conclui a saga de descobertas e transformações psicológicas. O que acontece ao longo desse percurso não resumirei aqui: cabe ao leitor realizar essa peregrinação poética e simbólica, inserindo-se ele próprio como personagem, ao lado da Pantera e do Lobo, para ouvir o que o oráculo tem a dizer. A linguagem dos poemas não é linear, nem poderia ser, em se tratando de um mosaico de múltiplas camadas, cores, vaticínios e sentenças: temos aqui desde o tom solene, enigmático, oracular, próprio de uma sibila, até a fala mais coloquial, irreverente e provocativa das ruas; alternam-se os tons sensual e debochado, irônico e sagrado, prosaico e trágico, confessional e encoberto, pela via paródica (lembrando que “paródia” vem do grego e significa “canto paralelo”, não necessariamente humorístico). O movimento da linguagem é a rotação de sentidos até mesmo dentro de um único arcano: no Tarô, nada é estático, tudo é dinâmico, está em constante interação, transformação e proliferação de significados. A própria miscigenação entre poesia e conto de fadas apresentada nos poemas está em consonância com o caráter plurívoco do baralho: todos os recursos expressivos, monólogo e diálogo, descrição e narrativa, são válidos e cada coisa em outra coisa se transforma, seguindo as rodas do Carro e o movimento da foice da Morte, a Dama Negra que é a própria mudança personificada. À miscigenação ou hibridismo de gêneros, soma-se o diálogo criativo entre os textos poéticos e as imagens desenhadas por Leonardo Chioda, que além de ilustrador é poeta e tarólogo. Ele reimaginou as figuras arquetípicas dos arcanos especialmente para esta obra. Em síntese, o leitor tem aqui uma obra de extrema originalidade, que irá encantar desde os pesquisadores do Livro de Thot até os que desejam apenas ler boa poesia, imaginativa, articulada e bem construída como artefato artístico.
Claudio Daniel
São Paulo, Janeiro de 2019.