Como um amor à primeira vista, tanto pela edição em capa dura com ilustrações primorosas de Pryscila Vieira, quanto pelo conjunto de textos, o novo livro de Antonio Thadeu Wojciechowski, Poemas de amor ainda, é rico em oferta de ilusões para o leitor. Começa que ele o publica num tempo rude, em que não se acha mais amor nem em prateleira de supermercado, continua que ele o escreveu com a obstinação praticamente diária de publicar no Facebook, essa rinha de aves cegas em busca de fugir da morte, porém orando para Tânatos. Num dos poemas ele predica: “Todos estão pensando no que vestir no próprio funeral, / só, minha alma se fantasia para o grito de carnaval”.
Thadeu passou a vida remoendo vísceras de clichês, tanto como publicitário quanto como poeta, logo não se pode esperar que ele venha agora edulcorar coração nessa bacia das almas desalmadas que se perdem na superfície do que seja amor. Ele está mais para edulcorador de fígado, como se pode constatar no poema “Eu”: “sou o avesso / em vez de ir aprendendo / fui me desfazendo / e voltando ao começo // me livrei da fé / depois de perder a alma no negócio / perdi o amor próprio / e expulsei meu ego a pontapé // perdi a vergonha na cara / e gozei de real prazer e puro deleite / não dei às promissórias da vida o aceite / e me desfiz do que me mascara // fui deixando de lado / a solidão vazia das conversas de salão / entrei de sola com o dedo no cão / e me absolvi de todo o pecado / abandonei os jornais / doei meus gibis a um orfanato / para um asilo a TV e o rádio / e o de menos virou mais // agora tenho a mim / e comigo conto / se a morte é assim / eu estou pronto”.
O amor que ele prega a essa altura é aquele inútil da poesia, descompromissado, desinteressado e abdicado do corpo vendido pelo capitalismo e pela religião como necessário para uma conjunção. É um amor que alcança a plenitude na penúria (anunciada no poema “Eu”), com uma francisquinidade paradoxal etérea, sintetizada em quase que todo verso desse livro: “Minha alegria está nas coisas simples, / porque é nelas que tudo está escrito / Não há pegadas nos passos seguintes ; nem nas visões que enlevo ao infinito!” – “Sou letrado no que não serve pra nada” – “a vida é hoje; a morte, o amanhã / e a poesia, seu mais ardoroso afã”.
Assim, aquela fantasia de amor que se aplica na busca de um outro para se realizar aqui já se esvaiu com as décadas de experiência e observação: “até mesmo quem vai junto / já aprendeu que vai sozinho”. Em algum momento da sua geração de amigos beberrões ele deve ter blindado o seu fígado com todas as plantas dos jardins da Babilônia e amores do reino de Salomão, pois continua bebendo e festivo, uma gota de cicuta ciorânica em cada poema, preparado para a hora que ela vier: “meus amigos vão viver pra ver / meu funeral vai ser lindo de morrer!”.
Ok. Ele não perde por esperar. Com esse Thadeu que se celebra em vida também não dá pra acreditar tanto em poemas luminosos como este: “bom dia, solzinho! / quando vi minha sombra / vi que eu não ia sozinho”. Isso porque ele vive rodeado de gente, até poema consegue fazer em grupo, em quadrilha, em gangue, convivendo com padre de batina e com punk de botina. Às vezes se tem aquela sensação no começo dum poema de que ele vem com conversa mole chover no molhado de leitor calejado. Lê-se e constata-se que a chuva sempre acaba por resplandecer, mesmo no molhado. Não se meteu até à aparente pieguice de escrever poema de amor à mãe? Escapa sempre pela tangente: – “Mãe não nasce por acaso. / Mãe é a prova da alma ou a pista? / Não sei. Para mim, foi um caso, / um caso de amor à primeira vista!”
O “eu lírico” é onipresente, tanto que se poderia dizer que o livro é narcísico, um desvelar de amores a esse si mesmo poético, que se transfigura na venda de uma autoimagem de poeta, mas essa seria possivelmente mais uma casca de banana que diminuiria a força desse livro. Isso porque o amor fulcral de toda sua escrita é aquele que se tem pela linguagem, amor pelo prazer da retórica, por um falar sem fim através de versos, por picar e repicar as palavras, os sentidos, as imagens e seus clichês, amor por falar desbragadamente em versos medidos, comedidos ou desmedidos, numa dimensão que melhor se explicita na parte final do livro, quando ele reúne em “Beijo de língua (Outros por mim)”, um conjunto de poemas traduzidos.
Desses, sob esse aspecto, sobressai “Alegria de escrever”, de Wislawa Szymborska, que tergiversa justamente sobre esse prazer solitário que constata a cada palavra: “Nunca esqueçam que aqui não há vida de verdade. / O preto no branco tem outras leis. / Num piscar de olhos tenho o tempo que eu quiser / e posso dividi-lo em imedíveis eternidades, / cada qual com seu chumbo grosso em pleno voo. / Aqui nada acontece sem meu aval. / Contra minha vontade, nem uma folha cai / e grama alguma se curva sob o casco do cervo.”
O amor redivivo a cada livro: “Oh! Alegria de escrever! / Ó poder imortal do criador: / vingança de meus dedos por serem mortais.”
Ademir Demarchi
Santos, 19/9/2019