THADEU MÚLTIPLO E UNO – POR HAMILTON FARIA

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É com alegria que saúdo o poeta Antonio Thadeu Wojciechowski e seu livro mais recente ‘Poemas de Amor Ainda’. Eu e Thadeu não nascemos exatamente do mesmo ventre poético, nem vivemos as mesmas experiências de vida e palavra, embora tenhamos participado juntos de várias antologias da poesia paranaense.

É com alegria que saúdo o poeta Antonio Thadeu Wojciechowski e seu livro mais recente ‘Poemas de Amor Ainda’. Eu e Thadeu não nascemos exatamente do mesmo ventre poético, nem vivemos as mesmas experiências de vida e palavra, embora tenhamos participado juntos de várias antologias da poesia paranaense. No entanto, pela nossa primoirmandade, nascemos em quintais contíguos da existência. O Alto da Rua XV e a Campina do Siqueira foram nossas fontes, quando passávamos finais de semana na casa da mãe Julíbia e quando dormíamos na casa da tia Francelina, junto com uma população enorme de primos. Nesses paraísos da infância éramos campeões, pernas de pau driblando com os pés no chão; embrenhávamo-nos nos matos e nas barrocas com a meninada para de lá extrairmos a poesia da vida. Também tínhamos as traquinagens, brigas entre meninos, a descoberta da sensualidade das meninas. E ainda tínhamos mestres inesquecíveis: ele com artistas avô e pai, pintores de primeira, de murais e de quadros; o seu tio poeta Stanislau, o Estacho, que teve a obra queimada numa briga com a esposa; e a mãe, Francelina, que declamava versos de Augusto dos Anjos, com a barriga molhada de tanque, pés descalços e as veias azuis saltando da perna. Do meu lado, a mãe Julíbia de quintal e o pai de palavra, e os irmãos meninos-poetas que recitavam em cima do muro para os passantes da Rua Dias da Rocha. O pai Rômulo lia Camões, Vieira, Eça e Kipling e a mãe cantava guarânias na beira do forno espantando galinhas. O nosso avô materno, o maestro Júlio Barreto, autor de dobrados, hinos e valsas, certa vez fugiu de casa para assistir à apresentação da ópera O Guarani no Rio de Janeiro.

Por que estou dizendo isso? Porque a infância incendeia uma vida inteira dentro de nós, – na alegria ou na tristeza, na vida concreta e na existência poética. E eis que o Thadeu, Polaco da Barreirinha, vem a público para falar do Amor, este tema execrado pela razão, mas também o único que os poetas falam com natural propriedade. Num tempo de mudança civilizatória, em que o banal busca dissolver o essencial, em que forças da ignorância negam até os fatos, em que a modernidade líquida dessacraliza a vida, pós-modernos, tempos de “fim da história”, só os poetas que não sabem andar em linha reta, pois chegam ao ponto pela curva, sabem chegar lá. Freud dizia que aonde quer que ele chegasse descobria que um poeta já havia estado lá antes. Assim valoriza a capacidade do poeta, através da sensibilidade, do cuidado com os seres, de chegar na fonte que impulsiona todas as mudanças: o amor.

Mas não basta o amor para se fazer boa poesia, é necessário emoção estética, criação de linguagem, visão de mundo e um certo estado de alma. E Thadeu traz fortemente estas qualificações na sua arte, no mais clássico como o soneto, nos pequenos haicais, no texto rimado e no quase em prosa, nos mais populares, quase cordel, com ritmo, respiração, achados, sóis, sós, amores, humores, chorares e rires, sombras e assombros, ritmos e riscos, cores e dores. Thadeu múltiplo. Thadeu uno. Nesta cosmovisão tudo converge para o amor. A verdadeira poesia desperta o mundo do seu sono para uma longa caminhada, da vida prosaica à vida poética, criando outras realidades imaginativas, onde somos sujeitos da língua, da linguagem e da vida.


Hamilton Faria
Poeta

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